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Este Natal escolhi um filme que em si não é uma obra de arte, nem sequer um filme virtuoso em termos de linguagem do cinema, mas tem um guião com imensas potencialidades, um guião assim podia pertencer a uma obra-prima, e tem personagens fabulosas bem defendidas pelos actores.
Como muitos filmes americanos das décadas mais recentes, segue determinados clichés na sua rota, refiro-me à própria questão da construção das personagens, são personagens-tipo para o bem e para o mal, e também ao desenvolvimento do guião a partir do primeiro terço do filme.
E há a questão da solução final para os encontros e dilemas, e a questão da banda sonora, mas disso podemos tratar já, será o piano de Sakamoto (o que tenho ouvido ultimamente): “Aqua”, “Koko”, “Amore”.
Se quisermos pensar em Natal este filme tem lá tudo: a futura mãe, uma mãe muito jovem e vulnerável, a esperança da vida esse milagre maior, a disponibilidade da sua natureza benéfica a reflectir-se na disponibilidade de desconhecidos que com ela se cruzam.
Este guião surpreende pela sua enorme força inicial: uma rapariguinha é abandonada pelo namorado no Wal-Mart. Daí para a frente constrói as rotinas da sobrevivência para si e para a bébé que vai nascer. Mas não estará sozinha.
Perguntamo-nos se isto é verosímil, defendo que sim, que é verosímil na sua simplicidade e complexidade, isto acontece na vida real. Porquê? Porque esta rapariguinha representa todas as pessoas aparentemente frágeis mas terrivelmente fortes na sua tranquilidade e constância, na sua natureza amorosa. Muitas vezes são presas fáceis de gente sem escrúpulos, isso também é verdade, mas muitas outras vezes recebem de volta o amor que expandem. Esta é para mim a melhor aproximação possível do espírito do Natal: esta disponibilidade afável e amorosa.
Aqui as mulheres são-nos apresentadas numa certa diversidade de tipos e na sua força e fragilidade, cometem erros e voltam a recompor-se, desde a alcoólatra generosa à mãe solteira vítima de predadores sexuais, passando por esta rapariguinha que descobre na fotografia (o registo da vida) a sua expressão no mundo.
Os homens aqui também na sua variação possível, do pior ao melhor, e com a possibilidade de redenção final mas após terem estragado tudo (no caso do namorado).
Procurem rever este filme sem preconceitos cinematográficos ou outros e terão uma agradável surpresa. Natalie Portman está perfeita aqui…
Por esta altura, já todos perceberam que gosto dos filmes do Woody Allen. Já são quatro a navegar neste rio...
Nunca apreciei o actor principal (conhecia-o de uma série em que desempenhava um papel mais do que irritante), mas este papel foi uma verdadeira surpresa! Aliás, todo o filme é uma surpresa! Diria mesmo... uma surpresa refrescante! Quam diria, um filme em que a personagem principal é um sessentão hiponcondríaco e com mau feitio, pessimista e cínico até à medula, ex-cientista de física quântica, que sobreviveu a uma tentativa de suicídio. Dá para acreditar?
Gostei da forma como o Woody interage de forma cúmplice com os espectadores, e logo desde o início do filme, através da personagem. Este jogo sempre me agradou. E já não é a primeira vez nos seus filmes.
Neste filme tudo acaba por funcionar, até as situações mais improváveis, o que é uma mensagem insolitamente e atrevidamente refrescante, não acham?
Uma rapariga vinda do "sul profundo", que não sobreviveria três dias na selva nova-iorquina, é acolhida pelo nosso cínico. Contrariado, acaba por lhe mostrar os sítios históricos e turísticos da cidade. Sem se aperceber, a rapariga estava a absorver a sua perspectiva da vida e do mundo, com pormenores científicos e tudo. Contrariamente a todas as probabilidades, acabam casados e a viver uma certa harmonia caseira.
A mãe da rapariga é outra revelação tardia: de mulher abandonada pelo marido passa a artista num ápice, abre-se a novas experiências acabando num "ménage à trois" com o crítico de arte e o director da galeria.
Um processo semelhante de descoberta pessoal acabará por acontecer ao pai da rapariga: aceita finalmente a sua natureza e assume um novo relacionamento.
A mensagem do filme é tão simples que também funciona: o mundo é um lugar tão frio, impessoal e perigoso que devemos acarinhar o que quer que funcione nas nossas vidas.
A rapariga, depois de muita hesitação, acaba por se aproximar do jovem actor, o que deixa o nosso cínico herói subitamente murcho. E até mesmo a segunda tentativa de suicídio falhada o leva a aterrar num relacionamento que funciona: uma médium que passeava o cão e ia mesmo a passar debaixo da janela. Dá para acreditar?
Já o disse aqui, os filmes entraram na minha vida através da televisão. Como a maior parte dos filmes dessas décadas amadas eram a preto e branco, não fazia muita diferença que a televisão também fosse a preto e branco. Só viria a tornar-se colorida no nosso país em 80.
Se a televisão me trouxe os filmes que amei logo desde o início, como não sentir um carinho especial por essa caixinha mágica? De tal forma que sempre preferi ver os filmes na televisão do que em salas de cinema! Também já o disse aqui e provoquei reacções acesas e escandalizadas.
Entretanto, muita coisa mudou na televisão e nos meuis hábitos cinematográficos, porque me tornei alérgica ao écrã falante. Só o ruído das vozes, sempre iguais e cansativas, me põe os cabelos em pé. E mesmo as vozes dos canais das séries americanas, não são muito animadores. Produtos formatados, em pacote, para consumo de fatias de clientes, o público-alvo. A melhor utilização da televisão para mim é a de permitir ver os filmes que coloco no leitor de cds.
Também espreito os filmes no Youtube, o mais recente foi o All that Heaven Allows, do Douglas Sirk, que vi pela terceira vez. Nele, o realizador já prevê os estragos que a televisão virá provocar a nível da comunicação familiar e social. O reflexo da mãe de família no écrã de televisão é de partir o coração.
Tudo bem, tudo bem, é uma companhia já indispensável para os mais velhos (detesto a palavra seniores). Cada um sabe de si. Mas mesmo neste caso acho prioritária a comunicação humana, directa, sempre que possível. Sim, mesmo neste caso acho prioritária a passeata a pé, as excursões de autocarro, os piqueniques, actividades várias como o teatro, a dança, o canto, o convívio, do que especados em frente de uma televisão.
É certo que hoje já se pode falar de um fenómeno de dependência televisiva. Sem dúvida. O próprio écrã luminoso parece que atrai o olhar meio mortiço de milhões e milhões de pessoas. O mesmo já se passa com outros écrãs, gigantes e minúsculos, por todo o mundo e em todas as faixas etárias.
Nunca tinha visto o filme The Fontainhead, mas depois de tanto me falarem no livro de Ayn Rand, resolvi visualizá-lo na internet. O filme exerceu, desde logo, um terrível impacto sobre mim: aqueles actores! Gary Cooper e Patricia Neal, um dos pares mágicos do cinema! Todos os actores, aliás, se enquadram na perfeição no papel que lhes foi dado. E aquelas cenas bem encadeadas, aquelas lines fabulosas, aqueles cenários, aquela atmosfera!
King Vidor domina a linguagem do cinema, já não há planos assim, sequências assim, luz-sombra, aquela simplicidade elegante e animal ao mesmo tempo, a ligação visceral a todos os elementos, terra, pedra, pele, olhar, respiração. É esse o mundo em que o herói se move e que a heroína irá descobrir também e de que irá tentar fugir.
Mas a mensagem do filme irá agitar-nos para sempre: a possibilidade da autonomia no mundo da pressão da opinião pública, a liberdade do indivíduo e o condicionamento do grupo, a criação e a cópia, a vida e a simulação. É certo que Ayn Rand utiliza uma linguagem simples e brutal, como simples e brutal é a verdadeira inteligência e a perspicácia, despojadas de emoções ou sentimentos. Sim, aqui confrontamo-nos com uma inteligência brilhante, magnífica, arrebatadora. E quando isso acontece temos de nos distanciar um pouco para não nos deixarmos encantar e render.
Também já pensámos assim, o indivíduo e a sua vontade de viver e criar e o grupo e a sua mediocridade e domesticação, o indivíduo e a sua coragem, o grupo e a sua cobardia. Quantas vezes nos afastámos dos outros para conseguir respirar, simplesmente respirar? Quantas vezes procurámos o silêncio para conseguir ouvir o nosso próprio coração? Mas a verdade é que já encontrámos no meio da multidão um olhar amável, um sorriso luminoso, a cumplicidade breve e natural da nossa humanidade. E é isso que a autora não revela, compaixão pela fragilidade da existência, pelos momentos fugazes de empatia entre desconhecidos que se cruzam na multidão hostil. Deixamo-nos pois fascinar mas a uma distância segura.
Voltemos ao filme. Um arquitecto constrói a sua própria síntese e nesta síntese entram forma e função, a simplicidade, a utilização inovadora dos materiais, coragem provocadora, rasgos de génio. Ora, um arquitecto assim encontra obstáculos pela frente, os adversários naturais numa sociedade orientada para o conformismo e o consenso. Interessante a insistência na palavra consenso. A autora aqui é radical, não pode haver lugar a consensos e o herói prefere trabalhar como um simples operário do que ceder a pressões (e convenhamos, as condições propostas eram inadmissíveis).
Uma pedreira onde de vez em quando se ouvem explosões. É este o cenário do primeiro encontro dos dois. Ela, uma crítica de um jornal de grande circulação, sofisticada, fria, distante. Logo que vê aquele homem fica hipnotizada. Gostava de poder descrever esta cena de uma forma mais original, mas não consigo. Ela fixa-o, lá de cima, ele segura o olhar até ela se aperceber. O diálogo dos dois é simplesmente fascinante. Daí para a frente ela irá lutar entre o fascínio que este homem exerce sobre si e a vontade de lhe escapar. Todas as cenas e diálogos são autênticos duelos e, no entanto, o pensamento e sentimentos essenciais estão em perfeita sintonia, ambos se reconhecem um no outro. Dois espíritos autónomos. Ela, um espírito mais rebelde do que propriamente autónomo.
A arquitectura, metáfora magnífica de toda a criação, da transformação da natureza, de uma forma sempre nova de estar no mundo e de nele respirar e agir. Na arquitectura a obra ergue-se e permanece por muito tempo, orgulhosamente exposta, um marco, uma referência, uma influência. Em sociedades tradicionais e conformistas esta visibilidade liga-se essencialmente ao poder, tal como há milhares de anos todas as obras que se ergueram e permaneceram. Para o nosso herói a obra não é coisa morta, tem uma vida própria, uma consistência própria, vibra, serve um propósito, e tem muito dos neurónios e da emoção do autor. Esta perspectiva exerce um fascínio desde logo na mulher rebelde e nalguns espíritos raros, mas encontra oposição numa maioria conformista.
O filme está perfeito na linguagem do cinema, na atmosfera, na mensagem, nas personagens. Nunca vi tão bem descrita a energia vital de toda a criação, e de toda a vida afinal. O que nos move não é precisamente esse motor interno, esse impulso original, essa primeira curiosidade, caminhar com os nossos próprios meios? Que tipo de sociedades estamos a preparar com a massificação e o conformismo, esse movimento contrário a tudo o que é vivo e criativo?
Interessante este confronto indivíduo-grupo, autonomia-conformismo, criação-cópia, vida-poder. O nosso herói discursa de forma desapaixonada, como desapaixonado é o seu olhar sobre a opinião alheia. Simplesmente não pensa nisso. Essa é a dimensão da sua autonomia. E aqui a autora é radical. De uma radicalidade que nos assusta um pouco, como já disse ali atrás, como se lhe faltasse amabilidade e compaixão. É certo que a multidão, ávida de dramas humanos e de frivolidades, também não é amável nem compassiva. Tritura com a mesma indiferença os que constroem e os que destroem. Mas, por isso mesmo, precisamos de um contra-ponto, de uma bússula, a consciência humana. Nada pode ser assim descrito de forma tão dicotómica, há zonas cinzentas, há oásis no meio do deserto, há sementes a florir no meio do betão, há organização no meio do lixo.
Vou ainda voltar ao filme, mas preciso de me familiarizar com as personagens, as cenas e sobretudo os diálogos. Ainda estão demasiado frescos na minha memória. Vamos a ver se me inspiro...
As personagens representam características humanas aqui levadas ao extremo na sua limpidez: o autor independente, a crítica rebelde, o director ambicioso, o simulado perverso, o conformista cobarde, etc. Os seus actos são radicais, próprios de personagens-tipo, na vida real é tudo mais fluido e complexo.
Há também drama que baste, porque a inflexibilidade arrasta sempre consigo sofrimento sofrido e infligido, o que seria possível evitar se as pessoas (e as personagens) conseguissem abdicar do poder, da necessidade de deixar a sua marca nos outros e em si próprias. Magoar alguém é o resultado de se magoar a si próprio, mas quase ninguém se apercebe.
Confesso que os dramas baseados nesta vã e desinteressante busca do poder não me seduzem mesmo nada. E as nossas personagens são paradoxais embora não o pareçam: o nosso herói quer deixar uma marca histórica do seu génio, a mulher chega a propor-lhe desistir de uma luta inglória só por ela, o magnata escolhe sair de cena por sua iniciativa depois de garantida a obra da sua vida. Tudo isto contradiz a verdadeira autonomia que não procura o reconhecimento de um público. A verdadeira autonomia basta-se a si própria.
Embora todo o drama funcione muito bem em cinema: um triângulo estranho se forma à volta de uma casa de campo, uma atracção adiada por um casamento, um acto destrutivo a meio da noite, um julgamento, o arranha-céus a tocar as nuvens.
Confesso que nunca entendi este fascínio por arranha-céus. É um impulso humano primário que vem desde os megalitos, as pirâmides, os monumentos em altura, as catedrais. E os americanos nunca dispensam as alturas e os precipícios em cinema, vem desde o mudo.
Este final do filme soou-me a um contraponto sem chama para todo um percurso desafiador. Aí vai a mulher até aos céus onde o homem a espera em pose de vencedor. Lembrou-me o King-kong original, do filme dos anos 30. Também o homem pré-histórico terá um dia abotoado aquela pose de vencedor com a presa aos seus pés?
E aqui uma contradição minha: sempre adorei as montanhas em cinema, a subida pelos rochedos íngremes e ásperos, a luz-sombra das pedras, ou a luminosidade da neve. Árvores que se elevam vertiginosamente também me fascinam em cinema. Deveria gostar de arranha-céus mas não, não me interessam mesmo nada.
Voltando ao final com o nosso herói em pose de vencedor, orgulhosamente só, perto das nuvens... Não é o final que eu esperava, mas é o final lógico na lógica do filme.
Só se vence na própria consciência, os medos, o orgulho, as dependências, os jogos de poder, a manipulação. É na consciência de cada um que tudo se passa. É esse o verdadeiro teatro da vida, o confronto entre as várias tendências humanas. De resto, a maioria dos actos e palavras são distraídos e irreflectidos, a tal opinião pública facilmente manipulada que o filme retrata tão bem.
Mas esta fórmula autonomia-conformismo ainda não está compreendida e resolvida. No filme todos procuram o poder embora não pareça. Há, no entanto, aquela parte do discurso do nosso herói, em que refere a troca de serviços livre e baseada na competência de cada um. Aí a autora aproximou-se da possibilidade de uma sociedade organizada na base da autonomia e não da servidão.
Hoje como nunca este tema é actual, basta olhar em volta, tudo é estudos de mercado, formação de opinião, as sondagens, a massificação levada ao extremo. E no entanto... nunca como hoje a possibilidade de ter acesso à concretização de sonhos antes inacessíveis, pela informação, tecnologia e ferramentas.
E isto também no cinema, nunca tivemos tantos meios, comparando com a década de 40, e tão pouco entusiasmo. Onde está essa magia perdida de estar a desbravar terreno, a desenvolver uma nova linguagem?
Muitos dias depois: À distância temporal, o diálogo que mais me incomodou neste filme nem foi o diálogo constrangedor entre a mulher rebelde e o namorado da altura, um arquitecto ambicioso mas medíocre e conformista, em casa do director do jornal onde ela tarbalha e que os convidara. Podia ser, pois tem todos os ingredientes de uma situação verdadeiramente decadente: confrontado entre a carreira promissora de arquitecto, aquele homem conformista escolhe a carreira à namorada. Assim, sem mais nem menos. Dirige-se à mulher nestes termos, mais coisa menos coisa: Se achas bem, por mim tudo bem também. Sem qualquer vestígio de conflito interno nem dor da despedida. E sai de cena, como se nada de decisivo ou fundamental tivesse acontecido na sua vida a partir daquela escolha.
Não, o diálogo que me incomodou ainda mais do que este, foi o diálogo entre este arquitecto, ambicioso, medíocre e conformista, e o nosso herói. Já entalado entre o sucesso de uma carreira construída sobre a capacidade de compromissos sucessivos e a incapacidade técnica e criativa de resolver um projecto que exigia inovação e ousadia, pede ao nosso herói que o ajude. Este coloca-o perante a promessa de exigir que o projecto seja respeitado na íntegra, que não lhe façam qualquer alteração. O colega aceita. Mas aqui o que me incomodou foi o discurso do nosso herói que traduz, a meu ver, a ideia fundamental da autora: A diferença entre nós é que tu fazes uma obra a pensar nas pessoas que a vão utilizar, habitar. Eu penso apenas na obra, na obra em si! A obra de um criador é a sua fonte de inspiração, a razão do seu empenho!
Isto é assustador e perigoso. Porque se trata de um pensamento sedutor e arrebatador, que pode levar a terríveis equívocos. A obra em si, o valor supremo, e tudo se lhe deve submeter! A alternativa é a mediocridade e o conformismo das massas.
A escolha não está entre estas duas variáveis, entre o criador inteligente e superior e as massas ignorantes e medíocres. A escolha está precisamente na consciência individual, de cada um, é aí que se passa o verdadeiro teatro da vida e das escolhas fundamentais. A consciência como o espaço-tempo da observação e da reflexão. Em que se pode escolher entre a autonomia e o conformismo. Mas em que a obra, uma qualquer obra, não vale por si só, não é o valor supremo. O valor supremo é a vida, a vida real, frágil, palpitante.
Os nossos heróis são demasiado orgulhosos para o entender, também à sua maneira confundem coragem com linguagem do poder, com a lógica da morte e do vazio. No seu mundo, no espaço onde se sentem vivos, perto das nuvens, há uma distância entre si e o mundo das massas, conveniente e intransponível. Uma consciência assim formada só cria fracturas, a pensar que cria obras-primas, intemporais, como as que ainda vemos sobreviver a séculos de civilizações perdidas. Já não vemos vestígios dos seus habitantes ou da sua forma de vida, mas vemos vestígios da organização do poder: pirâmides, torres, sarcófagos.
A obra vale pela sua utilidade e funcionalidade em relação à vida, à consciência viva, a meu ver. Traduz um certo tempo-espaço, provoca, desmonta, anima, agita, não lhe somos indiferentes. Mas não vale por si mesma. O seu valor está no nosso olhar, na nossa consciência. Na própria vida.
Há quem procure o fantástico em cinema, eu procuro o autêntico, o verosímil. Seja de forma realista (aproximada do documentário) ou metafórica (aproximando-se da poesia, da pintura, do teatro). O que importa para mim é a busca da verdade (filosófica ou científica).
Todas as expressões artísticas são, a meu ver, formas de analisar e reflectir a vida, as pessoas, os afectos, o mundo, o universo. Do mais simples ao mais complexo, do menor para o maior. Um simples dia no percurso de um anónimo pode dar um filme riquíssimo em informações sobre a nossa natureza, as nossas dúvidas, angústias, alegrias, tristezas. A questão está na forma de pegar num tema e desenrolá-lo em linguagem própria do cinema.
Ultimamente dei por mim a ver filmes sobre a guerra do Iraque: Jogo Limpo (Fair Game), Jogo de Peões (Lions for Lambs), Combate pela Verdade (Green Zone).
São todos construídos de forma muito aproximada do documentário, o que os torna verosímeis e credíveis. E o que lhes dá mais força e impacto. Transportam-nos para aqueles ambientes caóticos, em que a vida se torna repentinamente frágil, descartável, desamparada. É o ambiente de guerra, a sensação de alerta constante, o medo permanente. Nada é estável, seguro, fiável. Nem as informações por detrás da acção das personagens.
Não consigo deixar de pensar que é este mundo caótico que parece estar a alastrar-se sem controle. A todos os níveis: económico, político, social, tecnológico, mental. Quando não se diz a verdade às pessoas, jogando com as suas vidas, sangue e ossos, com as suas famílias e afectos, o que se pode esperar de quem gere o poder?
Jogo Limpo acompanha a construção de uma versão da realidade que possa justificar a invasão do Iraque, apanhando pelo caminho uma agente da CIA e o marido, um embaixador. O filme está construído com ritmo, à volta da família e dos amigos mais próximos, de uma secção dos gabinetes da CIA e nas zonas críticas do globo. Subliminarmente pressentimos uma mensagem pedagógica, pelo exemplo das personagens que persistiram na desmontagem da mentira oficial: vale a pena defender os princípios da democracia, o valor da liberdade e do direito à informação.
Jogo de Peões evidencia, de forma mais dramatizada aproximando-se da linguagem do teatro, as diversas faces do poder: o político ambicioso que tem nas mãos a capacidade de jogar com vidas para conseguir protagonismo; a jornalista que, na impossibilidade de desmontar a informação fabricada e dizer a verdade, tem um poder relativo, mas enorme, de não voltar a deixar-se manipular; o professor que ainda pode influenciar a vida e o percurso dos seus alunos, desafiando-os a reflectir, a pensar pela sua própria cabeça, a procurar ver por detrás da informação que lhes é dada, a viver de forma consciente, activa, consequente, e não alienada, conformista, decadente. Finalmente, o poder muito relativo dos jovens decidirem da forma mais saudável e criativa, porque condicionados pelos valores dominantes e pelas suas condições de vida. A pressão do ambiente em que se cresce e vive é enorme, e isto é exacerbado na idade impressionável. Magnífica cena e magnífica line do professor, a jogar a última cartada, questionando o aluno promissor se conseguiria viver sem se preocupar com o que se passa à sua volta. A line segue mais ou menos esta ideia: Não voltarás a ter as capacidades que tens hoje, a mesma inteligência e criatividade. Tudo passa demasiado depressa.
Green Zone leva-nos ao cenário da guerra e mantém-nos lá: o soldado, a jornalista, o general, o político. Estão lá todos. E tudo gira à volta da verdade. O ritmo das cenas acelera, sincopadamente e sem tempo para reagir. Percebemos que a vida depende dessa capacidade de reacção, da rapidez, da agilidade. Percebemos que nestes cenários as pessoas são tratadas como ratos de laboratório e já se comportam como tal. No final a mentira fabricada é desmascarada mas sentimos que esta foi apenas uma etapa na loucura geral. Nunca subestimar a inesgotável capacidade humana de consumir ficção. É o que percebo na maioria das pessoas: tolerar que lhes mintam, que as enganem, que as iludam, que as embalem.
Já há muitos anos que não via o filme Sunset Boulevard. O que retive então foi um monólogo de um homem morto a boiar numa piscina e de uma mulher obcecada com as câmaras e as luzes a incidir no seu rosto, enquanto desce a escadaria.
Revi-o há duas semanas e constatei que o nosso olhar muda com o tempo: desta vez o que me prendeu ao filme, além desse monólogo do William Holden (um dos meus heróis a que me falta dedicar um post), foi a terrível lógica da mosca e da aranha.
Eu explico: a aranha está muito quieta na sua teia, à espera de uma mosca inadvertida. A mosca anda sempre um pouco perdida à procura de uma oportunidade, move-se em círculos até cair na teia.
É o que acontece ao William Holden, aqui no papel de um argumentista à procura do reconhecimento do seu trabalho. Encontra, por mero acaso, a possibilidade de um trabalho bem pago na revisão de um guião escrito por uma antiga estrela de cinema. Embora na altura perceba a loucura do egocentrismo levado ao extremo nesse projecto de guião, concebido para si própria, na mediocridade infantil desse projecto de guião, o nosso herói aceita o trabalho, como uma fuga possível dos seus problemas financeiros.
É a gaiola doirada em construção, ainda invisível, a formar-se à sua volta como uma prisão a que não conseguirá escapar.
Toda a atmosgera daquela mansão decadente nos revela a loucura da mulher obcecada por si própria e pelo receio de envelhecer. Conseguir esta atmosfera em cinema é muito raro, é uma arte que só alguns realizadores dominam. Billy Wilder é um deles.
O próprio assistente da estrela decadente é uma personagem sinistra que a idolatra e que lhe alimenta a loucura escrevendo, ele próprio, as cartas dos supostos admiradores.
Vemos, com horror e alguma repugnância, a forma como um homem que queria viver através da sua criatividade, se transforma, a pouco e pouco, no gigolo daquela mulher possessiva. A decadência começa também na dependência, na perda de dignidade pessoal, de respeito por si próprio, na negação da felicidade possível, ao recusar o amor para ceder à chantagem emocional da actriz. E finalmente na auto-destruição, acabando a boiar na piscina.
Billy Wilder, o realizador que constrói cuidadosamente as personagens e o seu ambiente, que domina o ritmo das cenas, que nos transporta aqui até uma mansão fechada sobre si mesma, como um mausoléu onde se venera um passado esquecido por todos, onde se idolatram egocentrismos decadentes. A utilização de um monólogo, e ainda por cima de um morto, é genial. Porque só mesmo um morto para nos descrever essa mansão-mausoléu e personagens loucas que vivem num passado morto. Só mesmo um morto para descrever o que lhe aconteceu até esse final na piscina.
William Holden, o actor que nos deslumbra com a sua presença elegante, de homem calmo e confiante, capaz de sonhos e de entusiasmo, mas ainda assim vulnerável pela sua ingenuidade.
Já o coloquei a navegar neste rio, no Picnic, um dos seus papéis mais impressionantes. A ele voltarei aqui enquanto um dos meus heróis de sempre: o homem em quem se confia.
A primeira vez que ouvi falar no livro foi num programa da Oprah, numa altura em que frequentava a Sic Mulher para ver um outro programa What not to wear. Entretanto uma amiga falou-me no livro, Comer Orar Amar, mas não lhe dei muita atenção. Súbitos impulsos de uma viagem interior parecem-me sempre tão pessoais... apesar de universais na natureza humana. Todos nos irmanamos nas grandes buscas.
Mas a verdade é que ultimamente dou por mim a interessar-me por pessoas simples e vidas simples, passeios tranquilizantes, conversas amenas, pequenas amabilidades, tardes sossegadas. Grandes efeitos e percursos tortuosos podem ter-me fascinado, mais no plano filosófico do que no plano real, mas entretanto passei por aqueles rápidos no rio sem regresso e a vida tornou-se muito mais simples e alegre.
E tudo isto para vos dizer, caros Viajantes, que vi o filme sem ter lido o livro. A primeira impressão: muito condensado. Tanta alteração junta na vida de uma pessoa, e por impulsos a que não se pode resistir, colocaria um simples mortal a recuperar num local conhecido e acolhedor. No início assim será, em casa de um casal amigo, a seguir em casa do novo namorado, um actor sensível e espiritual. Mas a Liz lança-se na aventura sem hesitar: Itália, Índia, Bali.
Cada uma das experiências em cada um destes locais dava um filme. Aí é que está. O contacto com a cultura italiana, quente e sensual (e parece que ninguém lhe fica indiferente, já aqui falámos dessa influência inevitável, despertar a nossa verdadeira natureza), os pratos de massa, tomate, queijo e outros ingredientes fabulosos, o vinho sempre presente, a língua cantante cheia de cor e gestos... A descoberta dos simples prazeres da vida, só essa descoberta dava um filme.
Aqui Itália está ligada à parte comestível: Comer. Mas se observarmos bem, foi muito mais do que isso. Foi soltar hábitos e rotinas, a rigidez convencional, a imagem idealizada, e simplesmente viver dia a dia. O dolce fare niente, fabulosa descrição. Ser, estar, respirar, simplesmente.
Índia: a descoberta da dor profunda, a sua e a do Richard do Texas, uma amizade que surge no lugar da meditação. Escondemos as nossas dores quando não sabemos lidar com elas. E depois, perdoar, que é apenas largar, deixar ir... Não nos agarrarmos à dor. Não querermos segurar o que passou por nós, o que não está nas nossas mãos. Esta é a aprendizagem mais difícil, a meu ver: deixar de querer controlar tudo, a vida e as pessoas à nossa volta. Querer controlar sentimentos e emoções. Esta é a aprendizagem interior, mas necessariamente em interacção com os outros. Não é um percurso solitário. Richard tinha sido um mau pai e um mau marido, não porque essa fosse a sua natureza essencial, mas porque assim aconteceu na lógica da sua vida, nas circunstâncias do seu passado. Ao ouvi-lo, a nossa Liz consegue perdoar a sua própria fuga do casamento e ter magoado o marido.
Bali: o reencontro com o velho curandeiro, essa cumplicidade mestre-aluna. E também a descoberta surpreendente do seu maior receio: perder-se nos relacionamentos. E voltamos ao mesmo: o medo essencial de perder o controle. O homem que quase a atropela será o que a liberta desse medo. Talvez porque não tem receio dos seus próprios sentimentos e emoções, aceita-os.
Interessante a amizade da Liz com uma curandeira, divorciada e mãe de uma miúda. Terá sido a própria filha a pedir-lhe para se separar do marido violento. Com apenas quatro anos, dirá à Liz, pediu-me para o deixar... Agora mais crescida ajuda a mãe. Ambas têm um sonho, uma casa só delas, para ter a sua farmácia: plantas curativas. Ao ajudá-la a realizar o seu sonho, o círculo fecha-se nesta história incrível: é uma grande família que surge, laços que se estreitam, os amigos dos vários locais do seu percurso.
Só falta constituir-se a relação mais estreita, aquela que nos completa. E aqui observação importantíssima: a relação amorosa que tem passado culturalmente é sobretudo a relação fusional. O desafio aqui é precisamente o da proximidade e da partilha sem se perder a si próprio na relação. É a última lição para a nossa Liz: não recear perder o controle. Como dirá o velho mestre: o amor pode levar a perder-se temporariamente mas, paradoxalmente, ajuda a manter o equilíbrio.
Este rio saltou o mês de Abril, já repararam? Passou por uns rápidos tão agitados que por pouco a nossa frágil jangada se despedaçava nos rochedos laterais. Quando a água atravessa uma garganta subitamente estreita e há um desnível no leito, tudo se torna violento e ensurdecedor. Essa é a incrível força da natureza. E da vida também. A lógica da vida segue a lógica da natureza. A Marilyn desmaia de exaustão, o miúdo grita o seu nome e pergunta ao pai se ela vai morrer. O Robert Mitchum terá de a reanimar e tudo volta à rotina pacífica dos dias e das noites, mas não por muito tempo. Todos sonham com essa paz doce e amena, mas a vida terrena não permite tal ideal de vida, talvez porque a própria natureza desconhece essa quietude, e a vida exija constante agitação. Afinal, estar vivo é estar activo, é estar a mudar constantemente.
Neste outro filme, Jerry Maguire, há também um homem, uma mulher e um miúdo. Este filme sempre me impressionou, porque mostra uma perspectiva que raramente vemos nos relacionamentos: o início de uma colaboração baseada na inspiração de um simples memorando. O homem que se inspirou e escreveu um memorando, e com esse memorando inspirou a rapariga. Era apenas uma lista de intenções, dir-lhe-á quando se viu fora da empresa. Esta cena é das mais interessantes que eu já vi em filmes sobre as relações de poder em grandes empresas e sobre o trabalho competitivo. A rapariga acompanha-o nessa saída, inspirada pelo que leu nesse memorando. Acredita nele e segue-o. Mais tarde, ele dirá ao amigo que essa fora a razão de ter casado com ela: foi leal.
Bem, antes de se lançar nessa aventura dos afectos, da definição de um lugar familiar, podemos mesmo dizer que houve uma revolução na vida deste homem de discurso fácil e sorriso sedutor. A lógica da sua vida já não é suficiente. E só vê isso quando está na mó de baixo. A reacção da namorada não o satisfaz: culpa-o de ser um falhado. Talvez só nessa altura ele tenha percebido que a sua relação tinha bases muito pouco sólidas. Acaba por terminar ali mesmo o compromisso, levando ainda dois valentes murros de uma namorada em fúria.
É nesse estado, confuso e fragilizado, que aparece à rapariga leal. Um outro equívoco surge: fica encantado com o filho da rapariga. Criam de imediato uma cumplicidade bem-humorada. Também dirá ao amigo a outra razão de estar com ela: o miúdo é engraçadíssimo.
A cena mais sexy do filme: quando ele a leva a casa. É talvez a mais sexy que alguma vez vi à porta de casa de uma rapariga (e nos filmes americanos eles vão acompanhá-las mesmo à porta e ficam à espera do beijo). Registei a banda sonora da cena, porque a cena é deliciosa: ela no seu vestidinho preto, de alças, ele todo sedutor e insinuante.
É claro que, como a maioria das comédias românticas americanas, está cheia de clichés, (mas até não são dos piores, como um dia ainda hei-de aqui referir, tenho toda uma lista deles), mas o filme é, pelo menos para mim, mais do que uma simples comédia romântica.
Retrata o mundo competitivo dos agentes desportivos, mas também o mundo competitivo dos jogadores profissionais, os riscos que correm, em que um erro na sua carreira pode pôr tudo a perder.
Fala da amizade e da lealdade: não apenas do Jerry e da rapariga, mas também do Jerry e do jogador que representa.
Mostra os equívocos iniciais de uma relação amorosa e a complexidade das razões que a mantêm. E que, mesmo começando com o pé esquerdo, se pode retomar o caminho, porque o que os liga é muito mais forte do que inicialmente pensavam.
Mas a mensagem mais importante do filme está na discussão entre Jerry e o jogador: tens de jogar com o coração... não pode ser calculismo financeiro, tem de haver paixão.
Bem, o jogador irá despertar em si mesmo essa paixão nos jogos seguintes, sem dúvida, até ao jogo memorável, em que toda a assistência fica na expectativa quando desmaia na sequência de uma queda aparatosa. Minutos de aflição da mulher, dos filhos e do Jerry. Quando finalmente acorda e antes de se levantar, diz ao treinador, com ar malicioso: Deixem-me saborear isto só um pouco mais. Uma cena fabulosa e hilariante!
A família, aqui vista como um lugar-refúgio, no meio de um mundo cínico, muito competitivo e hostil. E a amizade, como base das relações, mesmo as profissionais.
A identidade como construção a partir de experiências vividas, como o que se lê no olhar de outros: o homem que ele quer ser... o homem que ele pode ser...
Nas Nuvens deixou-me perplexa. Construção em documentário, interacção de personagens muito realista e verosímil. O nosso herói preconiza a simplificação da existência pela libertação do excesso de bagagem que vai desde as tralhas inúteis aos relacionamentos e compromissos. No final (do filme) sofrerá um rude golpe que o confrontará com a organização da sua vida.
Muito actual no tema (os despedimentos de pessoal), na rapidez e eficiência dos resultados a apresentar nas organizações, na forma fria e artificial como as empresas tratam os seus recursos humanos, como esquecem a sua dimensão humana.
Muito actual na forma como se organizam as vidas, quase incompatível com a atenção e a tranquilidade que os relacionamentos requerem. Adiar a estabilidade, o medo do que isso significa. O nosso herói, adolescente tardio, sofre esse conflito, o desejo de um ninho, a nostalgia desse ninho, e o desejo de nunca parar, de debicar alegremente a vida. E no entanto, será ele a acalmar o pânico do noivo da sobrinha na manhã do casamento.
Está prestes o nosso herói a sofrer um rude golpe na sua auto-estima e valor próprio: a mulher que pensava estar sintonizada com ele na possibilidade de um ninho algures entre viagens aéreas vê-o como um intervalo, umas mini-férias da família. George Clooney consegue transmitir toda a ansiedade e a decepção nesse telefonema breve: Pensava que querias o mesmo, diz-lhe ela. Ele perde a voz por momentos. Magnífico.
Nas Nuvens é também um exercício fundamental sobre a loucura das organizações (empresas, instituições, etc.), a forma como organizam o trabalho e tratam os seus recursos humanos. Vejam e revejam esses desabafos emocionados de pessoas simples e comuns na reunião do despedimento. Como verbalizam ali o essencial sobre si próprios, o seu valor próprio, e as coisas para si fundamentais: o amor e a família. A sua humanidade.
Outro filme sobre excesso de bagagem é O Turista Acidental. O nosso herói mantém esta cultura no trabalho que exerce: escreve sobre viagens de negócio sem ser tocado pelas diferenças culturais.
Um filme sobre laços familiares de dependência mútua, em que tudo parece funcionar em simbiose mas em que um elemento assume o papel maternal. Um drama - a perda do filho - coloca o casal na depressão e na incapacidade de virar a página. O nosso herói adormece as emoções e o desespero no trabalho, mas a mulher não o consegue fazer e ilude-se na necessidade de partir. O espaço qiue deixa ao nosso herói torna-se na sua possibilidade de sentir finalmente a dor, as emoções reprimidas.
O filme está construído de forma muito inteligente, como um guião turístico de viagens para homens de negócios, só que em vez de lhes propor conhecer os locais e as suas especificidades, defende-os desse confronto.
A minha cena preferida é a do nosso herói a pegar na mão do miúdo frágil, filho da nova amiga, enquanto o guião do livro refere que um viajante pode ser surpreendido com um novo item na sua bagagem.
Mas há também a cena do abraço reconfortante, que é como chegar a casa. E o nosso heroi chega a casa da forma mais improvável possível.
Interessante observar no filme duas atitudes completamente diversas perante os desafios da vida: o nosso herói procura defender-se da vida e dos outros, a nova amiga aproveita todas as oportunidades para viver novas experiências. Trata-se de um encontro feliz, a possibilidade de mudar a bagagem.
Foi uma sensação estranha que me ficou após a visão de Babel. Uma sensação que não consigo situar nem definir. A primeira ideia, talvez a que se sobrepõe a todas as outras, é a incrível fragilidade da vida humana, da vida de cada um. Um segundo é suficiente para alterar tudo, um percurso, um sentido, um equilíbrio. Uma má decisão, uma hesitação, uma precipitação, uma emoção deslocada, e tudo pode alterar-se e caminhar para o caos.
A ideia que emerge a seguir é a incrível distracção geral do essencial, e talvez por isso mesmo o tal desequilíbrio que coloca a vida em perigo. Estas duas ideias estão interligadas, portanto. Uma vida mais atenta e orientada pode prevenir muitos erros e perigos.
Depois, esta ideia de que as pessoas simples se assemelham mais do que as formas de organização do poder de cada cultura. Interagem de forma mais fluida do que as organizações, procurando sobreviver da melhor forma. As organizações são frias, impessoais e insensíveis. Vêem potenciais inimigos em todo o lado. Não conseguem distinguir os sinais da verdadeira violência de outros sinais, os simples equívocos. Aqui a excepção é a do polícia-detective japonês que mantém a sua humanidade em todas as circunstâncias, mantendo-se do lado das pessoas simples, das suas vidas e das suas tragédias.
Finalmente, a ideia final é a do incrível milagre: a sobrevivência da mulher atingida pelo tiro do miúdo e a sobrevivência das crianças no deserto. Que mensagem nos fica aqui? Não sei. Que no meio da maior fragilidade há lugar para o milagre? Ou a mais perturbadora: estamos todos ligados por fios invisíveis, razões que desconhecemos, o grande plano? Ou a mais fácil de todas: um simples acaso, uma arbitrariedade?
Este Babel lembra-me muito o Grand Canyon e não é certamente por acaso. No Grand Canyon todos percebem estar ligados entre si, mesmo sem perceber bem porquê. Há um impulso para, de forma grata, tentar tocar a vida de outros, para a tentar compor.
O Grand Canyon iniciou uma nova forma de construir uma narrativa em cinema, em que várias personagens estão estranhamente ligadas, em que as pessoas comuns se apoiam mutuamente e em que sobrevivem da melhor forma aos perigos actuais (que, no fundo, são o retorno dos perigos antigos e universais, a violência humana).
Também aí se encontram duas culturas: a das pessoas comuns e das suas vidas simples e a da linguagem do poder. Interessante a personagem do produtor de cinema que percebe a lógica desse fosso enorme entre ricos e pobres, entre a concentração do poder e a sobrevivência dos restantes, mas que ainda assim, e depois de ter experimentado a violência na própria pele, regressa à promoção da violência nos filmes, aceitando-a como parte da natureza humana.
Hoje fico por aqui nesta minha reflexão. Mas Babel não fica por aqui. Não porque o fime me tenha impressionado por aí além, mas porque me provocou imensas questões que gostava de clarificar. Umas têm a ver com as pessoas, as suas vidas simples, outras com as organizações, a linguagem do poder. Outras têm a ver com a narrativa em cinema, o filme-documentário. E ainda outras, com alguns dilemas humanos que gostaria de decifrar ou perceber, mesmo sabendo que isso é uma tarefa que não está ao nosso alcance.
A fragilidade humana, pois. Aqui o que precipita tudo é que as personagens em perigo de vida estão fora do seu habitat natural, do seu território. Aqui até mesmo a rapariguinha japonesa, que está no seu território, se sente deslocada, procurando agarrar-se a alguém, a um contacto com o real.
Tudo se desarmoniza e só volta ao equilíbrio quando regressam ao seu mundo habitual e as famílias se reúnem de novo. Reparem que até a imigrante ilegal terá de regressar ao seu mundo original, que já não reconhece como o seu mundo. É certo que no seu caso porque desafiou as regras territoriais.
Sim, há regras territoriais, a lógica das organizações e da linguagem do poder, para além das diferentes condições de vida conforme as limitações da natureza. A natureza também condiciona os territórios: vejam bem as diferenças de territórios desérticos ou pedregosos, onde as pessoas se dedicam à pastorícia e pouco mais, com territórios altamente industrializados. É um contraste que nos choca no início. São séculos de diferença. E no entanto, a mesma desorientação da rapariguinha, o mesmo pedido de socorro.
A linguagem do cinema tem regras próprias, mesmo na narrativa. Aqui muito próxima do documentário, embora se distancie nas cenas mais íntimas em que o documentário não entra, apenas o cinema.
As personagens vivem o seu drama, o seu próprio desamparo, sem saber umas das outras. Acompanhamo-las sentindo o seu desamparo, esperando que se salvem. Nessa empatia humana o filme é eficaz. Um exercício muito necessário nos dias que correm. A empatia com o mais frágil que um dia podemos ser nós. Nunca saberemos quando podemos ser nós a procurar socorro, um abrigo.
Esta ligação entre personagens pode exemplificar a ligação implícita entre todos os que habitam este planeta de territórios tão diversos, de culturas contrastantes, de vidas tão diferentes, mas em que todas as pessoas se irmanam na sua humanidade.
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