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Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
Um mundo em que tudo é lixo

War Inc. e um mundo em que tudo é lixo, a vida, as pessoas, a arte. Um mundo em que tudo é superficial, descartável, reciclável. Em que tudo está à venda, em que tudo pode ser traficado. E em que se enriquece facilmente.

Um mundo em guerra permanente, com territórios delimitados por interesses obscuros e dominados por traficantes.

Não há lei nem ordem. Nem qualquer sombra de respeito pela vida. Mata-se porque sim, por dinheiro ou por razão nenhuma.

Um mundo com imenso ruído, a toda a hora, dos tiros, das explosões, da música lixo, da publicidade lixo.

Visualmente, é o caos, cidades destruídas mas ainda assim a funcionar, de forma quase esquizofrénica. E no meio das ruínas, néons e anúncios publicitários.

 

Nunca um filme como este War Inc. me pareceu tão verosímil na antecipação de um futuro mais próximo do que pensamos. Aqui, por enquanto, é o Turquistão. Mas se me perguntarem se é assim que vejo o futuro direi, Com os dados que tenho, baseando-me em tudo o que observo hoje, é este o futuro que nos espera mesmo. Um mundo bem mais caótico do que desejaríamos certamente. Um mundo onde será cada vez mais difícil viver.

 

Voltemos ao filme. Uma das cenas mais incríveis e que condensa a metáfora deste futuro antecipado é a do encontro entre o nosso herói, um operacional da CIA, que está farto de matar por interesses que já se afastaram há muito dos iniciais, minimamente aceitáveis e legítimos, eliminar os vilões, e o seu Chefe, frio e implacável. Este encontro dá-se num Parque Temático, um Circo Romano. O nosso herói, para salvar a própria pele, acabará por enfiar o Chefe num carro do lixo, colocado ali mesmo, no meio do recinto. O Chefe não aceitara bem a sua demissão. Não teve, pois, nenhuma outra alternativa se não enfiá-lo lá dentro e carregar no fatídico botão.

 

Outra cena: a chegada da cantora pop ao hotel, a cantora que personifica, na imagem e no comportamento, os ideais pornográficos do momento, para uma barbárie consumista de fãs que a seguem de forma canina. (De certo modo, também já podemos perfeitamente vislumbrar esta antecipação do futuro na música lixo a encher a rádio a toda a hora, os centros comerciais, as lojas, as ruas. Até a roupa da moda já se aproxima dessa vulgaridade e há muito que o bom senso e o bom gosto se ausentaram dos lugares in).

O nosso herói resistirá à sedução descarada da miúda, pois a cantora não passa de uma miúda assustada, como ele lhe dirá depois, e tentará protegê-la como pode. Acabará por descobrir que ela faz parte do seu passado doloroso (sim, um herói que se preza tem sempre um passado doloroso). 

Também resistirá à sua última missão camuflada: eliminar o Omar Sharif, um ministro com este nome incrível. Como troca pela sua vida, o alvo dar-lhe-á uma informação fundamental: o seu ex-Chefe está vivo, sobreviveu à espremidela do carro do lixo e terá sido o responsável pela sua dor maior, a perda da família.

O nosso herói só não resistirá ao encanto da jornalista idealista, sim, ainda haverá espécimens destes a provar que a nossa humanidade não se terá perdido para sempre, até porque são estas personagens que nos irão lembrar isso mesmo, os valores fundamentais, da vida, da liberdade, da justiça. É isso mesmo que dirá ao nosso herói: Estou sempre em minoria, um lugar muito solitário. Mas gosto de estar assim. Também só por milagre alguém tão ingénuo e vulnerável escapará ileso desta aventura, bem, por milagre e com uma ajuda deste homem, que ela vai aprendendo a aceitar.

 

Em War Inc., uma sociedade completamente alienada e consumista, vulgar e superficial, a imagem e a publicidade à escala mundial, a sua utilização temporária e descartável, um tempo fragmentado e de satisfação imediata. Uma sociedade de lixo, visual e sonoro, magnificamente retratada.

Num mundo assim só sobrevive o mais forte, o mais inteligente, o mais engenhoso e o mais sortudo, evidentemente. No caos, o factor sorte tem muita influência.

Bem, vou resistir a contar mais pormenores, pois o filme perdia a piada.

 

Confesso, este War Inc. impressionou-me mesmo. A realização, tecnicamente perfeita. As personagens, complexas e imprevisíveis. Os diálogos, simples e no ritmo certo. A fotografia e a montagem, impecáveis. Os cenários, as fatiotas, tudo bem integrado.

Como observadora dos pormenores e defensora do verosímil, fiquei fascinada pelo filme. Penso até que serve perfeitamente de aviso à navegação. De certo modo, antecipa um futuro que já está aí em certas partes ainda identificáveis. Um mundo caótico, um mundo em que tudo é lixo, a vida, as pessoas, a arte.

 


sinto-me: fascinada
música: qualquer "música lixo" que passe na rádio...

publicado por rio_sem_regresso às 20:17
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Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
Mrs. Muir - Gene Tierney

Desafiada por um amável viajante do Rio sem Regresso, dedico esta breve paragem da jangada, a Mrs. Muir.

Digo Mrs. Muir e não The Ghost and Mrs. Muir, porque a personagem que me fascinou quando vi e revi o filme foi sempre Mrs. Muir.

E digo Mrs. Muir-Gene Tierney porque aqui são duas e uma só, só podia ser Gene Tierney esta Mrs. Muir, a jovem viúva, mulher lindíssima, vestida de negro, véu no chapéu e tudo, aparentemente tão frágil, mas surpreendentemente determinada. Uma das personagens mais fascinantes do Cinema. Sem dúvida, uma das personagens femininas mais poéticas e cinematográficas. 

 

E depois há o mar... Mrs. Muir terá ficado desde logo presa àquele mar... a brisa, a maresia, o lugar certo para passar o resto dos seus dias, dedicar-se à educação da filha, com a ajuda da governanta fiel, naquela paz...

Se a casa está acessível no mercado por causa de um fantasma de um qualquer Capitão do mar... não importa, a casa é perfeita. Mrs. Muir é uma mulher muito prática, não se detém em pormenores desses.

A família do marido morto ainda tenta demovê-la, uma mulher sozinha, ali num sítio isolado, que loucura!

Mas Mrs. Muir está decidida e nada a poderá demover: aquele é o seu lugar, a casa certa.

O seu rosto é sempre tranquilo, um leve sorriso anima-o sempre... e mesmo na hora do susto, isto é, em que qualquer pessoa medianamente corajosa gritaria de susto ao ver o fantasma... Mrs. Muir responde-lhe à letra, que não se vai deixar intimidar, faça ele o que fizer.

 

Qual é o fantasma, ainda por cima de um Capitão irascível e mal-humorado, que resiste a uma mulher que o enfrenta sem qualquer receio? Um fantasma que se preze, digamos assim, ficaria completamente desarmado em frente de Mrs. Muir.

O Capitão não será excepção. E se é possível imaginar um verdadeiro fantasma apaixonado, este é o filme em que isso acontece. Nunca mais em Cinema se verá assim um fantasma a sério, rendido a uma mulher. Ainda por cima uma mulher tão jovem e de ar tão frágil. E que tinha tido o desplante de lhe invadir a casa e a sua divisão preferida da casa, que também era a dela, a do andar de cima onde se via o mar e onde passariam a conversar tranquilamente como um velho casal.

 

Os dias passam. E nada parece perturbar a paz da casa, de uma vida simples e tranquila. E das suas conversas amenas e acolhedoras.

Até surgir o factor perturbação: um homem real, de carne e osso, e com isso nenhum fantasma pode competir.

Mrs. Muir é jovem, e numa mulher jovem há sempre uma esperança secreta, de voltar a encontrar uma companhia. E este homem soube insinuar-se na sua vida, torna-se mesmo insistente. 

 

E aqui estranhamos o paradoxo na personagem: como é que uma mulher tão prática e sensata se deixa seduzir por um homem aparentemente tão banal e desinteressante? É este paradoxo o mais irritante para mim, talvez porque também o vemos na vida real: um homem tão sinuoso e falinhas mansas conseguir iludir uma mulher como Mrs. Muir...

Mas é mesmo isso que acontece. Mrs. Muir, descoberto o terrível (e medíocre) equívoco, fecha-se ainda mais no seu mundo, na casa, na dedicação à filha e desiste da ideia de uma companhia masculina. Vemos, pela primeira vez, o seu rosto fechar-se, quase triste, da desilusão mais profunda, mas a estupidez, insensibilidade e aridez do mundo não a podem atingir ali. Ali estão a salvo.

Talvez parte daquela tristeza se deva à ausência do fantasma, que desaparecera para sempre depois de a ver noutros braços. Nem um fantasma é imune aos ciúmes, e isso é mesmo muito masculino.  (1)

Pode até ser até mais romântico ver aquela mulher envelhecer sozinha... bem, não está propriamente sozinha, tem o mar... mas as conversas amenas e tranquilas devem ter-lhe feito imensa falta...

 

Penso que todos os que amam este filme registaram esse final, da descida das escadas, dos dois fantasmas finalmente juntos...  (2)

Também penso que se lembram da música, magnífica, e da presença daquele mar... a envolver tudo...

E que não terão ficado indiferentes ao fascínio daquela personagem feminina, Mrs. Muir.

Toda a narrativa está perfeita. Os cenários. Os diálogos. A montagem. A atmosfera daquela casa.

Este é o Cinema que de certo modo nos transformou, aos que se deixaram fascinar pela sua narrativa própria, os enquadramentos, o encadear das cenas, os sons...

Era impossível não nos ter transformado para sempre...

 

 

(1) Mas o impacto no nosso fantasma, da visão de Mrs. Muir com esse homem de carácter duvidoso, será apenas ciúme? Ou um desgosto mais profundo? Desaparecer para não ver a sua amada nos braços daquele homem?

(2) A eterna juventude de um certo romantismo, na idade do fantasma de Mrs. Muir. Ao meu olhar observador, que procura o verosímil mesmo em fantasmas, achei sempre que o fantasma de Mrs. Muir teria de ter a idade em que a mesma morreu. Certamente o fantasma do Capitão correspondia à idade exacta do seu desaparecimento terreno... ou não?

 


sinto-me: ainda na atmosfera do filme...
música: a original do filme, de Bernard Herrmann

publicado por rio_sem_regresso às 14:17
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Sábado, 24 de Outubro de 2009
Os argumentistas e a liberdade individual

Penso ter já referido aqui que tenho saudades de bons documentários. E que vi bons documentários na televisão nos anos 90.

Agora são mais raros, mas hoje, agora mesmo, vi um na TvCine 2, sobre um argumentista que prezava a liberdade acima de tudo e que sofreu na pele ter defendido os seus princípios: Dalton Trumbo.

 

O documentário está muito bem concebido: vários actores conhecidos lêem cartas ou textos seus, desde a sua juventude até à velhice, momentos cruciais da sua vida, momentos-chave.

Como a odiosa Blacklist e a perseguição a tantos artistas de Hollywood com consequências trágicas para muitos.

O documentário inclui igualmente excertos de filmes com argumentos seus, em que se nota o tom dominante e inspirador, de um enorme respeito pela liberdade individual.

Inclui também imagens da época, dos interrogatórios, da pergunta abominável, da terrível escolha de muitos que eram pressionados a denunciar os amigos.

E inclui depoimentos dos próprios filhos e de amigos e de filhos de amigos que permaneceram ao seu lado nesses anos da perseguição paranóide.

Dalton Trumbo foi interrogado pela Comissão (ou lá como se chama aquela estrutura) e, após acusação de desrespeito pelo 82º Tribunal (que estranho, decorei o número), foi preso em 1950. Ele próprio dirá mais tarde a um jornalista que concordara com a sentença, pois ele não tinha nenhum respeito por aquele Tribunal.

Duas cartas suas, lidas pelos actores, foram escritas na prisão, e assinadas Preso nº 1552 (ou outro nº parecido).

Dalton Trumbo queria acreditar que aquele, o denunciante, não era o rosto da América. Queria acreditar que o rosto da América era o rosto de tantos anónimos que tinha encontrado ao longo do seu percurso, pessoas comuns nas situações mais diversas, que se lhes perguntasse se gostariam de uma pessoa que denuncia um amigo, todos lhe responderiam que não.

 

Os seus textos são belissimamente bem concebidos e inflamados, quase parecem poemas épicos. E de facto, dá-lhes essa dignidade, a esses anónimos e às suas vidas, a dignidade de escolherem ser livres, de escolherem não denunciar os seus pares. Há também a dignidade da vida em si, pois ao abordar o tema da guerra, da morte, coloca esse direito de viver do lado de cada indivíduo, o direito de escolher não ser morto nas guerras de poder de outros.

Mesmo após a febre persecutória da Blacklist, os argumentistas que nela constavam não podiam assinar os seus trabalhos. Isso aconteceu igualmente com Trumbo que utilizou diversos nomes fictícios e, em pelo menos dois casos, nomes reais, de amigos que não tinham sido acusados.

E não a esquece, à Blacklist, nem esquece os amigos, insiste em lembrar cada uma daquelas vidas destruídas, essa imperdoável e irreparável perda de energia, de sonhos, de talentos. 

E tem a consciência e a lucidez de perceber que isso está latente, que pode surgir de novo, que todos os governos de todo o mundo têm a tendência para querer controlar a vida dos cidadãos. 

Para Trumbo esta interferência dos governos na vida das pessoas é simplesmente inadmissível. E a sua referência é a própria Constituição Americana.

 

É verdade que este documentário me emocionou. E não foi só a mim, os próprios actores não ficaram indiferentes aos seus textos.

O mais inquietante foi um desabafo seu, já entradote, em que começava a duvidar se a maioria das pessoas, entre a segurança, o abrigo, a alimentação, de um lado, e a liberdade de expressão do outro, não escolheria a primeira.

 

De qualquer modo, são autores assim que inspiram e revelam um outro caminho em que cada indivíduo pode tentar preservar a sua dignidade e a vida a que tem direito.

São autores que souberam escolher um caminho adverso, que não abdicaram dos seus princípios, que nos mostram essa possibilidade.

Numa época tão adversa à liberdade individual como a nossa, em que a escolha da segurança parece tornar-se quase automática, em que nem se reflectem opções e as suas consequências e em que se valoriza o sucesso a qualquer preço (essa outra forma de histeria), os textos de Trumbo ganham uma dimensão muito actual.

 

O documentário também aborda o papel da indústria do Cinema na época. Mesmo que tenha querido passar isenta e distante, na verdade colaborou activamente nesse processo persecutório ao despedir e anular contratos com os referenciados na Lista.

Como Trumbo refere, o poder tenta vergar um indivíduo começando por lhe retirar a segurança económica, baixando-lhe o seu padrão de vida. E aqui a indústria colaborou.

É por isso que o Cinema-arte é magnífico! Porque a sua verdadeira dimensão e magia está muito para além da indústria que o mantém, está nalguns dos seus realizadores, argumentistas, produtores e actores corajosos que souberam defender o seu melhor trunfo: a liberdade de cada indivíduo.

 

 

Breves notas: Lembram-se de uma série de documentários, que passaram na televisão nos anos 90, sobre o Wild West? Pois bem, talvez estejamos a observar os últimos espécimens da verdadeira liberdade, no sentido mais nobre e genuíno do termo, e talvez os últimos espécimens sejam habitantes dessa América, agora também a resvalar da alienação-ainda-mal-sucedida para a domesticação-paternalista.

 

 

Para quem quiser ver Trumbo, pode programar a gravação para dia 23 de Novembro, 2ª feira, as 15.55, no TVCine 2.

 


sinto-me: inspirada

publicado por rio_sem_regresso às 00:15
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Terça-feira, 20 de Outubro de 2009
Sobre paraísos perdidos

Revi recentemente Lost Horizon de Frank Capra e se é possível ficar-se ainda mais fascinado numa segunda vez do que à primeira, foi o que me sucedeu com este filme.

A cópia estava restaurada, como li no genérico final, e isso facilita muito, claro está.

Há uma frescura neste filme: na fotografia, na montagem e nalgumas cenas. Conseguimos datá-lo essencialmente pelos cenários com um design muito anos 30 e pelas fatiotas que, aliás, são magníficas.

É na narrativa e na montagem que o filme se destaca, a meu ver: na primeira vez que o vi resisti um pouco ao atrevimento da montagem de alguns diálogos em que a imagem é simplesmente congelada enquanto a personagem continua a falar.

 

O tema é mesmo Capra, o realizador idealista, das grandes causas, dos temas elevados, que envolvem a vida social das comunidades. Aqui numa perspectiva mais filosófica e avançada, colocando o paraíso utópico ao alcance da humanidade. De certo modo, em todos os seus filmes a utopia está presente, implícita pelo menos, no idealismo dos seus heróis.

Se nos outros filmes os heróis conseguem melhorar um pouco as suas comunidades (bem, em It's a Wonderful Life essa mudança é mesmo radical), aqui o herói descobre o paraíso que está ali ao seu dispor, que pode habitar e nele permanecer até ao final dos seus dias.

E tudo acontece num momento inesperado, sem a vontade prévia das personagens que surgem, ou antes caem do céu (literalmente, o avião despenha-se) nesse lugar protegido entre as montanhas do Tibete: Shangri-La. 

O diplomata pacifista, Robert Conway, o nosso herói, identifica-se quase de imediato com o lugar onde não há doenças ou guerras. Identifica-se com a sua filosofia e organização social. Ah,  entretanto apaixona-se pela rapariga. Mas isso é depois do fascínio pelo próprio lugar.

 

De todas as personagens, a mais realista é, a meu ver, George Conway, o irmão do nosso herói, o que procura por todos os meios sair daquele lugar perdido nas montanhas. É a personagem mais à escala humana, digamos assim, mais verosímil.

Tudo fará para voltar para o conhecido, a civilização. E mesmo o facto de ter encontrado uma rapariga amável e carinhosa que o tenta convencer a ficar, nada o fará desistir.

As restantes personagens vão-se adaptando naturalmente ao lugar, depois da estranheza inicial. Encontram um objectivo, um como educador, outro como construtor.

 

As minhas cenas preferidas:

- naqueles cenários de design hollywood-anos 30, com canteiros muito arrumadinhos, tudo muito florido, aparece a rapariga a cavalo e o nosso herói resolve persegui-la a cavalo também. A paisagem é toda ela organizada e a natureza acolhedora, como se o clima fosse sempre assim afável e temperado, o paraíso de facto. A rapariga resolve ir nadar no lago, tal como terá sido nos paraísos originais, antes do voyeurismo civilizacional. O nosso herói é um gentleman e apenas a observa de longe. Por fim, compõe um boneco com a roupa da rapariga e afasta-se.

- o diálogo com o High Lama deste Shangri-La que o nosso herói descobre ser o francês que chegara ali há cerca de duzentos anos. O chefe espiritual daquela comunidade, o homem que depois da viagem pelas montanhas ainda tivera de amputar uma perna, e que se dedicara àquele lugar e à sua comunidade. Toda esta situação e a descoberta da idade incrível daquele homem, sentado à sua frente com um sorriso constante no rosto, seria suficiente para aterrorizar qualquer um, mas não o nosso herói. Aquela figura frágil diz-lhe mesmo que estava à sua espera para dar continuidade ao seu trabalho e o nosso herói não se deixa assustar com a ideia, embora não se sinta propriamente à altura. E quando descreve este encontro e este diálogo (resumido) aos colegas de aventuras, é com um rosto emocionado e inspirado.

- a incrível aventura da tentativa de regresso à civilização, por insistência de George, o irmão do nosso herói, em que acabam por levar a rapariga amável e carinhosa. A decisão da partida é mesmo dramática. O nosso herói sente-se dividido e se decide partir será apenas para salvar o irmão. Avisa-o, no entanto, da situação da rapariga, cuja idade não é a que aparenta naquele lugar onde se pode chegar a centenário com a maior das facilidades, mas que dali saindo passará à condição de mortal com prazo limitado de vida. A própria rapariga quer arriscar, também ela avessa a um paraíso programado à medida dos utópicos. Reparem na fotografia, nessas montanhas agrestes, na luta pela sobrevivência, quase parece cinema mudo, na mímica dos corpos e tudo. E reparem no horror de George ao ver a rapariga envelhecer de repente. A verdade é demasiado horrível para o rapaz que se despenha num precipício.

 

Bem, como os paraísos perdidos não são para todos, e eu arriscaria mesmo a dizer que não são à escala humana mas à medida das personagens ou dos visionários, o nosso herói irá tentar até à última voltar àquele lugar. E consegue-o, tudo indica que sim. Pode chegar lá em péssimo estado, mas chega.

 

Aqui não vemos o confronto do herói com uma sociedade cínica e hipócrita, como em Mr. Smith Goes to Washington (que também revi recentemente) ou em Mr. Deeds Goes to Town; nem com as suas próprias frustações e sonhos adiados, como em It's a Wonderful Life; nem mesmo um herói a ser transportado do anonimato ao poder por uma sociedade-espectáculo, como em Meet John Doe; e também não estamos num mundo hostil em que as pessoas se esfalfam para sobreviver, mas em que pode surgir a amabilidade e generosidade mais genuínas, como em It Happened One Night.

Aqui tudo é filosófico e poético, amável e harmonioso, afável e acolhedor. Mas porque é que este paraíso não nos deixa tentados, curiosos? Dá que pensar...

Em todas as histórias de paraísos, porque é que os homens os abandonam ou são expulsos? Ou simplesmente sonham com eles, antecipam-nos, mas nunca os descobrem...? Dá que pensar...

O que me levou a questionar: serão as utopias habitáveis?

É que, tal como George, também eu quereria regressar ao mundo imperfeito da vida mortal com prazo limitado, ao mundo imperfeito do cinismo e hipocrisia, das paixões e erros... mas onde também mora o imprevisto e o acidental... e onde às vezes, onde menos se espera, se descobre a pura magia de um gesto genuíno.

 

  


sinto-me: fascinada
música: música original de Dimitri Tiomkin

publicado por rio_sem_regresso às 21:43
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Quinta-feira, 17 de Setembro de 2009
A lógica dos grandes impérios

Ontem acabei o serão a rever o JFK do Oliver Stone já nem sei em que canal, talvez fosse no Hollywood (não, afinal foi no TVCine 2).

Estranho... raramente esqueço as cenas de um filme, mas só me apercebi que já o tinha visto no diálogo entre o Procurador Jim Garrisom (Kevin Costner) e X, um alto dirigente reformado dos serviços especiais (Donald Sutherland), num parque deserto. Esta foi a cena que tinha registado sem me lembrar a que filme pertencia. Agora já sei.

 

O filme está construído quase em estilo de documentário. Oliver Stone é exímio nisso. Mesmo os actores mais conhecidos (e aqui entra um grupo bem simpático, que já tinha coincidido noutros filmes), entram nos papéis de gente comum (bem, aqui gente muito pouco comum) de uma forma natural.

O filme desmonta as mentiras governamentais, a ficção nacional fabricada para consumo de massas. E ao mais alto nível, para esconder uma conspiração: o assassinato de um Presidente e as suas reais motivações. Oliver Stone também é exímio nisso.

O filme termina em tom quase poético e idealista: um simples Procurador na demanda da verdade. Esta cena no Tribunal, em que aliás o réu é ilibado, lembrou-me de imediato Mr. Smith Goes to Washington. É quase impossível não vermos as semelhanças entre este Procurador idealista, teimoso e corajoso, e uma das personagens mais enternecedoras (pelo menos para mim) do cinema dos anos 30!

O filme também revela o paralelismo império americano-império romano. E desmonta a lógica dos grandes impérios, como se constroem e como se mantêm. Destruindo todos os que ousam pôr em risco o seu enorme, imenso poder.

Tal como na Roma antiga, em que os imperadores podem ser eliminados, também na nação americana isso acontece com a maior das naturalidades.

O sistema protegeu-se de tal forma que tudo é possível: matar e limpar as provas, destruir e culpar terceiros.  (1)

 

Na lógica dos impérios há o poder e as massas populares. Há a grande mentira consumida como verdade. Há os grandes interesses económicos e a carne para canhão (neste caso, as indústria do armamento e do petróleo, poderosíssimas, e os soldados americanos mortos e estropiados no Vietname).

 

Este paralelismo império americano-império romano é interessantíssimo. Tinha-o visto, pela primeira vez referido, pelo Gore Vidal, numa excelente série de documentários intitulada, salvo erro, O Império Americano. Terá passado na televisão nos anos 90, nesses anos de documentários magníficos...bem, já falei nisso aqui...

Gore Vidal é, ele mesmo, um patrício romano, até vive na Itália (ou vivia, pelo menos, à data do documentário)... Aristocrata até à medula, elegância descontraída. (Envelheceu bem, a meu ver. Vi-o, alguns anos mais tarde, no Gattaca.)

De forma um pouco teatral, de um comunicador nato, vai-nos revelando as semelhanças entre os dois impérios: no assassinato a sangue frio do imperador pelos seus mais próximos e nas suas fases: da expansão, da manutenção do poder a qualquer custo e, por fim, do declínio.  (2)

 

 

(1)  Isto é possível porque há sempre imensa gente a gravitar à volta do poder, ávida de uma fatia ou de uma migalha: os conformistas facilmente escravizáveis e os ingénuos que engolem as ficções mais ou menos patrióticas. Reparem nas personagens repelentes que surgem nos interrogatórios, dispostos a tudo, sem revelar qualquer vestígio de culpabilidade. A maioria nem questiona as ordens.

(2)  Vale a pena rever esta série de documentários sobre a América, do Gore Vidal. Gravei-os em cassete, o que me impede de os rever. Mas talvez ainda os consiga encontrar em DVD.

 



publicado por rio_sem_regresso às 12:09
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Domingo, 9 de Agosto de 2009
Como boicotar a sua própria felicidade

As surpresas do fim de um dia podem acontecer-nos até em francês! Não faz mal. Emma Thompson e Anthony Hopkins dobrados na língua romântica da Europa, passa. É heresia, eu sei, e também prefiro mil vezes as vozes dos actores, são indissociáveis dos actores e tudo isso, mas... gosto tanto tanto deste estranho filme que fiquei a vê-lo mesmo assim dobradinho...

 

The Remains of The Day, um dos filmes mais estranhos e tristes, pelo menos para mim. Há lá coisa mais triste que a incapacidade de comunicar? E tendo todos os elementos necessários: Mr. Stevens não é cego nem surdo nem mudo, mas é como se o fosse, ou pior ainda!, uma alma  incapaz da expressão dos afectos e fechada aos afectos de outros.

 

Se tivesse de procurar em cinema a personagem-contraste com este mordomo iria parar ali no escritor d' O Meu Pé Esquerdo. Tudo o impossibilitava e limitava para a comunicação com outros seres humanos. Não só limitações físicas, também as sociais, um meio operário, embora numa família muito especial, sensível à cultura, o que em si já é magnífico!

 

É esta rigidez formal que irá impedir Mr. Stevens de ser feliz na companhia de uma mulher que, além de o amar, o aceita com as suas idiossincrasias, o que já é um achado, uma raridade. Mas esta mulher é especial, o equivalente para Mr. Stevens da mãe para o escritor, capazes desse amor incondicional, de os aceitar tal como são.

 

Sim, embora alguns textos sobre o filme refiram esta lealdade de um mordomo, penso que o que vemos aqui ultrapassa tudo isso: trata-se de uma clara dificuldade em aceitar, exprimir e viver os afectos.

Mr. Stevens fechou-se de tal modo nesse uniforme, nesse papel de uma lealdade formal, que se esqueceu de viver, de levar uma vida acompanhada, de sintonizar afectivamente com essa mulher. Nem mesmo quando a ouve chorar, desamparada, no maior desespero. O que lhe diz? Fala-lhe de pormenores da casa, de trabalho: um recanto na adega que precisa de ser mais cuidado pelo pessoal!

E no entanto vemo-lo perturbado, pelos sentimentos que pressente nela e em si mesmo.

 

Sim, Mr. Stevens torna-se perito em boicotar a possibilidade da sua felicidade.

 

Este filme continua a acompanhar-me. Este Mr. Stevens incomoda-me, ficou a moer-me os neurónios:

Mr. Stevens deixou-a partir. Sabia, porque ela lhe dissera, que uma palavra sua, um gesto seu, a teria impedido de partir. Mas nada lhe disse, nada fez para que ela ficasse.

 

Os anos somaram-se. Miss Kenton construiu uma vida familiar, essa construção afectiva a que as mulheres se ligam de forma visceral (ou animica). Sem saber bem o motivo, aqui pensei num texto de Marguerite Duras, A Casa,  (1) e foi a partir desse texto claro e cru, que comecei a perceber a partida de Miss Kenton para essa família possível, essa casa habitável porque sua, por si sonhada.

 

Mas este Mr. Stevens ficou ainda a moer-me os neurónios! Depois de a deixar partir e de ter visto esses anos somarem-se uns aos outros, e de ter visto a sua realidade, a triste lealdade canina a um mundo para o qual ele apenas existe enquanto for funcional, Mr. Stevens ainda espera que ela volte. E mesmo quando a vai visitar pensa nessa possibilidade.

Mas a mulher construiu uma família, casa. O seu novo centro de gravidade. O homem tem dificuldade em entender isto, como nos diz Marguerite Duras.  (2)

 

Reparem bem naquela despedida, nessa noite chuvosa. De todas as despedidas que já vi em cinema, esta só é comparável à da Ida Lupino e do Humphrey Bogart no High Sierra, quando também ele a deixa num autocarro.

 

Ainda vou voltar aqui a este filme que não me larga, nem que mais não seja para o corrigir e colocar acentos e cedilhas.

Mas antes disso, preciso esclarecer melhor essas diferenças de perspectiva da casa e da família possível, do homem e da mulher. E para isso vou pegar de novo no texto de Marguerite Duras:

"Penso, fundamentalmente, que a situação da mulher não mudou. A mulher encarrega-se de tudo na casa mesmo que a ajudem, e mesmo que seja muito mais informada, muito mais inteligente, muito mais audaciosa do que era antes. Mesmo que tenha agora muito mais confiança em si. Mesmo que tenha escrito muito mais, a mulher em relação ao homem ainda não mudou. A sua aspiração essencial ainda é manter a família, tratar dela. E se socialmente mudou, tudo o que fez, está a fazê-lo além disso, dessa mudança. Mas o homem terá mudado? Praticamente, não. Talvez grite menos. Também se cala mais, agora. Sim. Nao se vê que haja mais nada para dizer. Acontece-lhe estar em silêncio. Chegar ao silêncio naturalmente. Descansar do barulho da sua própria voz.

A mulher é o lar. Era. Ainda ali está. Podem fazer-me a seguinte pergunta: E quando o homem se aproxima do lar, a mulher suporta-o? Digo que sim. Sim, porque nesse momento o homem faz parte das crianças. ..."    (3)

  

 

(1)  Duras, Marguerite - A Vida Material - Círculo de Leitores, Julho de 2003 

(2)  "... a permanência da mulher na casa continua a ser da mesma natureza. Trata-se sempre de uma existência como se estivesse escrita, já descrita, mesmo aos seus próprios olhos. De um papel, de certo modo, no sentido habitual do termo, mas que ela representaria para si própria inevitavelmente e sem quase ter consciência: assim, no teatro da solidão profunda que é durante séculos o da sua vida, dessa maneira, a mulher viaja. Essa viagem não é guerras nem cruzadas,  é na casa, na floresa, e na cabeça crivada de crenças, muitas vezes enferma, doente.  ... O homem não sabe desta partida das mulheres. O homem talvez não saiba destas coisas. O homem está ocupado com um trabalho, uma profissão, tem uma responsabilidade que não abandona nunca, que faz com que ele não saiba nada das mulheres, nada da liberdade das mulheres. Muito cedo na história, o homem deixa de ter liberdade."  (pags. 58, 59)

(3)  Duras, Marguerite - A Vida Material - Círculo de Leitores, Julho de 2003, pags. 53, 54.

 

  


sinto-me: fascinada

publicado por rio_sem_regresso às 18:20
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Sexta-feira, 7 de Agosto de 2009
Os filmes muito arrumadinhos dos anos 50

Nesse fim de semana de excessos cinematograficos, ainda vi o Giant pela terceira ou quarta vez. Foi no sábado.

Gosto dos filmes dos anos 50 muito arrumadinhos e muito postal ilustrado como este Giant. vá-se lá saber porquê!

 

Aqui, são os actores Liz Taylor e James Dean que fazem o filme, que lhe dão a consistência e a atmosfera.

Jett ficará para sempre fascinado por ela, desde o primeiro momento em que a viu. Fará tudo para lhe agradar. Como um rapazinho, obedece-lhe mesmo em iniciativas que contradizem as suas convicções, a sua cultura texana: ajudar os empregados mexicanos nos cuidados de saúde, nas condições em que vivem. Esse é o primeiro choque cultural vivido por esta jovem mulher.

Sim, Jett pensa, erradamente, que é o dinheiro, ou a falta dele, o grande obstáculo para se aproximar dela, para a impressionar. Aquela mulher valoriza outras qualidades e dir-lho-á: O dinheiro não é assim tão importante...

Ao que ele responde, irónico: Não é importante para quem o tem...

Mas se é verdade que o dinheiro é importante sobretudo para quem não o tem, também é verdade que é nas outras qualidades que esta mulher fixa a sua vida ali, no meio daquela imensidão texana. É essa a sua razão de viver: cuidar da sua família, dos empregados e dos habitantes da aldeia.

Essa razão de viver passará para o seu único filho homem, que quer ser médico e exercer na aldeia. Essa ausência de preconceitos raciais passa, curiosamente, de mãe para filho. É assim que ele formará uma família-síntese de diversas culturas.

 

Apesar de Rock Hudson encaixar às mil maravilhas num filme assim arrumadinho dos anos 50, não me parece que exemplifique um espécimen masculino texano dos anos 20 aos anos 50. Não me parece. Mesmo mimado pela irmã mais velha, Luz... mas isso são convicções e cepticismos muito pessoais, pois procuro sempre a verosimilhança, a credibilidade das personagens.

Não me parece, pois, muito credível, que este homem, habituado a exercer o poder masculino, na ordem natural das coisas, acabe por ceder à influência da mulher, por mais que a ame. Embora a ideia dessa possibilidade me agrade.

 

Aliás, é quase reconfortante ver como, apesar da sua aparência frágil, esta jovem mulher parece conseguir domar o marido, aquele homem das cavernas, procurando construir uma relação igualitária no casal e o respeito pelas mulheres no círculo de amigos. Mas a verdade é que, quando são as próprias mulheres a submeter-se, como crianças, ao domínio masculino... já é mais difícil! Bem, conseguir sensibilizar o marido já me pareceu obra!

Mas em Cinema tudo é possível. E é bom que assim seja. Porque o Cinema, enquanto arte, influencia a vida. E de forma misteriosa e até imprevisível.

Sim, o cinema por vezes é a arte do impossível.

 

No final é esse texano, habituado a uma clara divisão de poderes e de tarefas, de classes sociais e de etnias, a defender direitos iguais para qualquer cidadão.

 

Sim, estes filmes arrumadinhos dos anos 50 começam no início, continuam no meio e terminam no final.

Neste caso, o final é simbólico: o futuro da América está no convívio pacífico e igualitário de homens e mulheres de diversas etnias.

Duas crianças olham-nos directamente, em grande plano. Interessante imagem para concluir aquela saga familiar dos Benedict voltando-a para o futuro, não apenas o seu, mas de toda uma nação...

  


sinto-me: a apreciar o postal ilustrado

publicado por rio_sem_regresso às 22:13
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Domingo, 2 de Agosto de 2009
Um quadro, amores eternos, dilemas terrenos, psicopatas e a linguagem do poder...

Talvez seja o fenómeno que me tenha sucedido neste fim-de-semana: uma overdose de filmes, e tudo por causa dos canais TV Cine da Zon.

 

Na 6ª (ou foi 5ª feira?), vi o Ronda da Noite, construído à volta do quadro de Rembrandt com o mesmo título. Filme nocturno, quase todo à luz quente de velas, criativo na montagem, nas personagens e nos diálogos. Quase peça teatral em palco, mas com um ritmo e uma poesia que só o cinema permite. Hipnótico, pelo menos para mim. A vida terrena, no que tem de promissor e no que tem de dramático. A vida a pulsar, na sua realidade vivida quotidianamente, o seu lado prosaico e o seu lado doloroso.

E a razão daquele quadro, no que tem de revolucionário em termos artísticos, no seu lado rebelde, que procura desmontar a ilusão com a ilusão. Sim, quando os acessórios e as máscaras revelam mais do que escondem. Engenhoso. Genial.

 

Hoje iniciei com Love in the Time of Cholera, baseado no livro de Gabriel Garcia Marquez. Um amor quase obsessivo de um  homem sensível, que precisava de amor, pela sua Fermina.

Confesso o pecado mortal de não apreciar a generalidade dos escritores sul-americanos (à excepção do meu querido Jorge Luís Borges). Curiosamente, gosto de ver as adaptações cinematográficas dos seus livros. É que em filme soam muito melhor, as descrições intermináveis vêm resumidas, os devaneios, os sonhos, esse lado barroco que me desmotiva de imediato.

 

Se o amor para toda a vida é possível? Se é amor o que este homem sente pela sua eterna Fermina? Não querendo ser cínica, esse amor pelo menos levou-o a viver sucessivas paixões que foi anotando, melhor, registando e numerando. No filme chegou, pelo menos, às seiscentas e tal. Com o pretexto de a procurar esquecer, ou pelo menos, de adormecer a dor de a não ter.

Enternecedor, no entanto, o seu reencontro. E a forma como o amor é descrito por ele à sua amada, já viúva e livre, segundo ele, para o amar: em cartas poéticas e filosóficas.

Um Bardem vulnerável e comovente. E uma magnífica Fernanda Montenegro, a mãe que enlouquece no final.

 

Seguiu-se Paixão em Florença (Up at the Villa), que apanhei a meio, mas que ainda deu para ver uma magnífica Anne Bancroft, uma esplendorosa Kristin Scott Thomas e um sedutor Sean Penn.

O dilema: escolher a aventura amorosa ou a segurança afectiva? Ou ainda: escolher a verdade ou a simulação?

A mulher escolhe a verdade, o que a leva ao homem aventureiro. Que foi o seu herói nessa noite dramática. De onde se pode concluir que podemos encontrar um herói até mesmo num sedutor boémio. 

Pode parecer frívolo, mas adorei o guarda-roupa deste filme! Situa-se no final dos anos trinta, com o poder em crescendo do Duce. 

 

Acreditam que não resisti, em continuidade, a um outro filme, desta vez em ritmo de investigação policial, só por causa do Richard Gere?

The Flock. A novidade do filme? Talvez o tema: agressores sexuais, predadores e pervertidos que, quando referenciados, são envolvidos como informadores. Neste caso, o nosso protagonista começa a revelar perturbações mentais e emocionais que o levam a perseguir e a agredir esses indivíduos. O tema revelou-se enjoativo por todo esse horror do mundo psicopata, mas já estava com a curiosidade de saber se iriam encontrar a rapariga desaparecida. E se estaria ainda viva. 

 

E ainda tive paciência para ver um filme desconcertante, produto de algum realizador imberbe americano (vai uma apostinha?): A Fúria de um Homem Discreto (He Was a Quiet Man). 

Um homem que é vítima de humilhação no local de trabalho (a terrível linguagem do poder em grandes organizações, a lembrar-nos a cadeia alimentar dos predadores). Neste momento, já estava enjoada da espécie humana, acreditem! Depois da loucura e perversão psicopata, esta linguagem do poder soou-me kafkiana.

Interessante: a subida do andar térreo, dos funcionários insignificantes e obscuros, para o último andar, onde o poder se exerce. E de como o quociente de inteligência ou a criatividade não melhora com a subida de andares. O pior dos comportamentos humanos aqui em evidência no local de trabalho.

Interessante também, as rotinas solitárias e o desejo secreto de vingança, uma fantasia quase a passar ao acto: uma bala no tambor da pistola, para cada destinatário.

Finalmente, a relação improvável deste homem com a rapariga preferida do chefe, que ilumina qualquer sala com o seu sorriso. E tudo pela circunstância de um acidente: quem dispara engana-se, confunde-a com outra. E a bala deixa-a paraplégica, o mais vulnerável possível. Mas também aqui, a ilusão desfaz-e: o seu sorriso era pura sedução estudada, de uma mulher ambiciosa e calculista. Será que a bala lhe dá a possibilidade de sentir noutro lugar da sua geografia? Tudo parece apontar nesse sentido, até o novelo se enredar de novo, de forma kafkiana, como a realidade tantas vezes é.

 

Sim, este fim de semana abusei na dose cinematográfica. Imagens a sobrepor-se, diferentes cores, ritmos, personagens, épocas... numa mescla confusa.

Cada filme pede um intervalo para assimilar a ideia, saborear a imagem, rever uma ou outra cena, uma ou outra frase...

A ver se me lembro disto da próxima vez que ligar a televisão.

  


sinto-me: a assimilar...

publicado por rio_sem_regresso às 23:54
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Sábado, 11 de Julho de 2009
O gigante Mao e o jovem Dalai Lama: a melhor imagem para a China e o Tibete

Kundun ou o percurso do actual Dalai Lama. Mas é muito mais do que o percurso do Dalai Lama, a sua geografia, as montanhas do teto do mundo.

Kundun comoveu-me de uma forma difícil de colocar em palavras. A magia dessa transferência de almas e consciências através dos tempos… O carácter alegre e inteligente da criança… O confronto entre duas realidades, dois mundos, duas lógicas completamente diversas, dois universos paralelos: o Tibete e a China.


Reparem na postura e na fragilidade do jovem Dalai Lama nesse encontro com um Mao gigante, truculento, boçal e psicopata. E o seu olhar sábio – magnífica metáfora! –, para os sapatos do gigante, bem lustrosos. Essa imagem ficou-me para sempre gravada, como a melhor cena do filme e a melhor descrição de sempre dessa sinistra personagem.


O rapazinho sobrevive à fuga para o exílio. Mesmo doente, chega à fronteira com a Índia. Depois disso, um outro percurso, de toda uma vida. Scorcese captou a sua alegria em criança. Ainda hoje é essa alegria que me impressiona, no riso, apesar do cansaço.

No exílio, que ainda hoje se mantém, um rapazinho (ainda o é, de certo modo…) representa a última esperança, toda a esperança de um povo, de uma cultura, de uma filosofia de vida…
 

 


sinto-me: comovida
música: o som dos instrumentos de sopro tibetanos...

publicado por rio_sem_regresso às 20:24
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A revolta dos replicantes contra o seu criador

Ridley Scott diz que foram sonhos e também coincidências que tornaram tudo possível. Às vezes acontece: encontros felizes, afinidades, cumplicidades.

Desde o argumento, as personagens, os cenários, os actores, o ambiente nocturno e decadente, a música, tudo, tudo, nos transporta para um futuro-parábola da natureza humana: a criação de um mundo onde tudo é traficado, um mundo de novas escravaturas, aqui na figura de replicantes.


Os replicantes e os implantes da memória. Os replicantes e o prazo operacional definido. Os replicantes e a ideia de perfeição funcional. A revolta dos replicantes. São ideias que fascinam.


Em Blade Runner somos contagiados pela espera ansiosa: a entrevista a um dos replicantes; a subida de outro, no elevador, até ao seu criador; a entrada do nosso herói no laboratório do Sebastian; a luta final no telhado; a ansiedade do nosso herói em relação à captura da sua amada.


Também parece que o único pormenor sobre Los Angeles, ainda não antecipado, são os carros voadores. De resto, o filme aproxima-se muito da actual cidade multicultural.

Quanto à existência ou não de replicantes ou Blade Runners… se considerarmos as metáforas… será que não existem?

 

 


Obs.: Saiu há tempos o DVD com novas sequências, efeitos especiais, comentários e a história da sua construção. E parece que também já estará disponível uma Edição de Coleccionador com mais outras três versões do filme.

 

Coincidência muito interessante: Descobri uma referência ao Ridley Scott e ao Blade Runner neste post magnífico, Micro-Ensaio Acidental sobre Ficção Científica, no Jardim de Micróbios.

  


sinto-me: fascinada
música: a banda musical original

publicado por rio_sem_regresso às 12:05
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